Paulo Afonso de Barros
preciosos segundos de paz...
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Bailarinos dos céus I ...
Ao longo de anos João nutria por Maria mais que uma afeição, mas a introversão e a timidez não lhe permitiam dividir com ela nada além de sorrisos e brincadeiras comuns a uma amizade de muitos anos.

Conheciam-se desde pequenos, frequentaram a mesma escola, estudavam na mesma classe e a partir de um determinado ano, já mais crescidos, iam e vinham sem a companhia das mães.

Ao voltarem para casa, num determinado dia do mês, após Maria acumular alguns trocados de mesada, paravam na única sorveteria daquele canto da cidade para tomar um sorvete e combinavam, ela, a dona do dinheiro, comprava picolés de sabores diferentes, assim cada um saboreava uma metade, forma criativa para fazer de conta que tomaram dois sorvetes dos quais mais gostavam, milho e framboesa.

O primeiro e único beijo inocente foi rápido, gelado, com sabor de milho e framboesa, roubado por Maria.

Faziam a tarefa de casa invariavelmente juntos e sempre no período da tarde, e na casa de Maria, quando Dona Rosa, a mãe da amiga, lhes oferecia um esperado ki suco, num dia de guaraná, noutro de groselha, acompanhado de bolachas de maizena da marca Maria, para eles era uma espécie de chá de todas as tardes, mas só após o dever de casa estar pronto e decorado.

Os anos se passaram, João e Maria sabiam praticamente tudo um do outro, o que mais gostavam e o que mais lhes incomodava.

Maria se chateava sempre que achava estar sendo interrompida quando estivesse conversando, asseverando, - Por favor, não me interrompa.

João, vez em quando, só para provocar, tentava atravessar sua fala, mas por dentro já ria ao vê-la zangada, para ele Maria era e estava sempre bonita, tudo nela era perfeito, os cabelos longos e loiros, gostava ainda mais quando ela os deixava soltos.

Maria sabia muito da timidez de João e como ele ficava embaraçado ao ser elogiado ou chamado à atenção, ficando ruborizado e sem jeito.

Quando estavam com 13 anos os rumos tomados foram diferentes, a família de Maria precisou se mudar para um bairro distante na mesma cidade e eles se distanciaram, compartilharam endereços, prometeram escrever um para o outro e, escondidinhos trocaram um último beijo, não gelado e sem gosto de milho e framboesa, as pernas de João tremeram, ele ficara sem jeito, o rosto ardia, mas, vindo de Maria tudo estava bom e por ela João aceitava qualquer coisa, até o ruborizar constrangido.

Durante o primeiro ano de separação João e Maria escreviam um para o outro, contando novidades, tristezas, medos, amizades novas e incertezas.

No segundo ano as cartas rarearam, João escrevia, mas poucas respostas recebia, com o tempo passando agora somente ele mandava notícias, e, dessa forma, ano após ano, sempre às vésperas do dia 11 de fevereiro, aniversário de Maria, ele lhe mandava um carinhoso cartão, alimentando no coração a esperança de uma resposta que nunca veio.

João, chamado insistentemente pela esposa para almoçar, lhe pede um pouco mais de tempo e, olhando pela janela de seu quarto, de onde avista o jardim de sua casa, todo gramado e florido, contempla o desabrochar das flores de suas árvores preferidas, o majestoso Pau-Brasil, um Jacarandá e o Ipê-Amarelo, além dos manacás, das onze-horas, das flores-de-maio e a dança dos graciosos bailarinos dos céus, os Beija-Flores, delicados, sutis, belos como Maria.

Paulo Afonso de Barros
Enviado por Paulo Afonso de Barros em 26/01/2017
Alterado em 21/06/2017
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